Com certeza se mantém atual e com todos os preceitos que regem a ciência .
É longa mas vale a pena a leitura
CARTA A UM JOVEM
Só hoje responde à sua carta. Há
de me perdoar o atraso. É que não poderia fazê-lo sem meditar um pouco sobre
suas indagações e hesitações, já expressas várias vezes durante os nossos
encontros. Levou-me a mesma ainda a refletir sobre o desenrolar de minha vida
profissional, e assim, a uma “busca do tempo perdido” – passado seria a
expressão mais correta – desde quando me iniciei na pesquisa no Instituto
Oswaldo Cruz, com Chagas, Villela, Torres, Miguel Osório e Carneiro Filipe.
Responde-lhe um pouco seguindo a
moda do dia. Em minhas andanças pelas livrarias encontreo três livros de
sucesso destinados à mocidade. Um, de André Maurois “Carta aberta a um jovem”;
o outro de Pierre Henry Simon, crítico literário do “Le Monde”, o ensaio “Para
um jovem de 20 anos”; e o terceiro de Georges Elgozy “Carta aberta a um jovem
tecnocrata”.
A principal indagação de sua
carta é a mais justa possível. Vale a pena ser cientista no Brasil? Poderia
transforma nesta outra – “Que lhe reservará profissionalmente – para não dizer
humanamente – o futuro”?
É o que me perguntam muitas vezes
moças e moços como você. Esta preocupação, eu a observo frequentemente na
fisionomia de meus alunos. Preocupa-me ela igualmente. Tem sido, entretanto, invariável
e afirmativa a resposta que tenho dado a ela, desde quando, em 1937, ainda moço
vi-me investido das pesadas responsabilidade de uma Cadeira à qual desejei dar
nova ação e novo ânimo, pelos quais procurei desde logo introduzir a pesquisa
na Universidade, e modificar velhos tabus de sua estrutura.
Desde então, encontrei-me face ao
dilema de saber se tinha ou não o direito de encaminhar os jovens que me
procuravam para uma carreira científica. Esta seria mais fácil mim do que para
eles. O nome de meu pai ajudar-me-ia vigorosamente. Como de fato. Ademais, mais
velho apenas de poucos anos, já me encontrava dirigindo uma Cátedra e o seu
laboratório, em uma idade em que poderia planejar para construir e não competir
para “chegar”.
Origina-se a resposta que sempre
dei, em parte da atitude muito dosada de otimismo face à vida. Facilitou-me
ela, sem dúvida, ter chegado à posição por demais representativa para mim, dentro
da coletividade científica brasileira. Quero lhe dizer também a minha convicção
de que existe em cada um de nós – os que procuram a ciência – a imperiosa
necessidade de servir seu país, seu povo e a própria humanidade, e a de que a
pesquisa é uma maneira de bem fazê-lo.
Creio aliás que a grandeza de um
homem, de qualquer profissão, deve-se medir muito mais pela intensidade deste seu
modo de sentir, do que pelo sucesso que houver obtido. Foi o que aprendi na
convivência com meu pai, com Virgílio de Mello Franco, Roquete Pinto, Villela,
Cerneiro Felipe, meu irmão e muitos outros. Por isso é que não considero
réprobos os que pensam política e espiritualmente de maneira diametralmente
oposto à minha. Respeito-os e os admiro desde que convicto de que os anima
autêntico desejo de servir e de engrandecer nosso país ou a nação que seja sua,
e não a sede do poder.
Assim, o primeiro aviso que lhe
quero dar é de não se enveredar pela atividade científica, se lhe faltar esse desejo
de servir. A ciência, com todas as suas grandezas, é na verdade uma servidão.
Servidão ao ideal, que buscando na aventura científica a verdade e o
descortínio de novos caminhos, quer dar ao homem as condições de vida que devem
ser imanentes à sua dignidade. Tal tarefa não é fácil em o mundo contravertido
pelo choque de paixões políticas e pelos conflitos armados e doutrinários,
submetido ainda a autocracia do poder econômico. Cabe, entretanto, à ciência,
concentrando-se nos caminhos do progresso verdadeiro, dar à humanidade a
contribuição – talvez a de mais valia – para o asseguramento de seu futuro.
É este um dos encantos de sua
futura carreira.
Na verdade, na marcha que
seguimos sentimo-nos todos ameaçados para uma guerra de destruição sem par, e
nos vemos imobilizados defronte da produção
de engenhos que poderão utilizar com mais proficiência as armas
nucleares, assistindo maravilhados à abertura da era espacial, cujos reflexos
militares não podem deixar de nos preocupar. Pressentimos com assombro que a
manipulação dirigida do material genético – a melhor esperança para o aumento
da produtividade agropecuária – poderá se voltar para o fabrico de um homem
novo, cuja idoneidade moral não sabemos qual será.
É que em nosso tempo a ação tomou
o passo da reflexão.
Como diz Herman Hesse, “nossa
época viu crescer a espécie humana prodigiosamente, sem que o dinamismo
resultante houvesse sido contrabalanceado por forças morais satisfatórias”. Os
que temem que a ciência faça progredir ainda mais o desequilibrio esboçado se
esquecem de que a ciência é responsabilidade do homem, que dela tirará o bom,
como o mau uso.
Extraordinária messe de
resultados benéficos para p homem foi obtida depois da bárbara explosão do
primeiro engenho atômico de Hiroshima; não teria sido ela obtida se fosse
aceita a admoestação do obscurentista o Bispo de Ripon, que sugeriu na Grã
Bretanha, logo após a explosão fosse fechados pelo prazo de 10 anos os
laboratórios de pesquisa de todo mundo. Isso me leva a uma outra advertência.
Tem todo cientista uma missão: a de zelar para que não possam suas descobertas,
por menos significativas que o sejam, ser desvirtuadas para outro fim que não o
da sua utilização em benefício da humanidade. Sua vida profissional, por causa
disso terá que ser em parte sacrificada. Nem todas as suas horas poderão ser
dedicadas ao labor puramente científico. Os aspectos sociais do que realizar,
tantas vezes difíceis de serem identificados, ocuparão sua atenção. Uma parte
de sua atividade deve ser dada aos outros: aos estudantes que o procuram – e se
isto não acontecer, não considere realizada sua carreira – e à informação do
público, a qual deve ser simples, verdadeira, acessível e destituída de
qualquer sentido de promoção. Exige ainda a sua futura carreira que você não
tenha eiva de egoísmo. Só assim poderá trilhar uma das linhas mestras da ética
científica? A da veracidade da informação; exige ela que suas comunicações não
escondam detalhes importantes da manipulação experimental, ou dificuldades
encontradas, permitindo assim a reprodução fácil do que houver observado. Mais
ainda. Sentirá você muitas vezes a frustração que lhe dará o conhecimento dos
resultados obtidos por outros grupos de pesquisadores e que lhe tirarão a
prioridade que esperava ser sua. Esta frustração será tanto maior, quanto maior
houver sido o seu empenho no trabalho realizado, e quanto maior for a sua convicção
de que, responsável por sua perda, tenha sido o tempo gasto fora do laboratório
ou as dificuldades de aquisição de material de trabalho, tão comuns entre nós.
Os caminhos da pesquisa
científica exigem humildade e generosidade. Só elas poderão permitir que você
compreenda que, acima de suas descobertas, esta o progresso da ciência. São
essas virtudes que lhe permitirão, do mesmo modo, admirar o sucesso de outros
cientistas. Sem a capacidade de admirar, que se refletirá como um estímulo em
sua própria atividade, esta se estiolará. É necessário, portanto, que você
compreenda que o aspecto competitivo da pesquisa científica tem um caráter especial.
Possui ele um componente olímpico que tícipes da competição, convictos todos de
que a obtenção do resultado final justifica os sacrifícios de uns e outros.
Será que você se apresta para a
sua nova carreira, sentindo todas as dificuldades espirituais com que se
defrontará?
Mas se estas ponderações podem
parecer desanimadoras, deixei-me lhe dizer que esta não é minha intenção.
Dir-lhe-ei mais ainda: se tivesse que recomeçar, teria hoje menos hesitação do
que tive à 40 anos passados. Para explicar-me melhor, tenho que me referir aos
anos que se seguiram à minha formatura, que foram os de formação científica, de
volta à Universidade, e da construção do meu lar. Neles adquiri a confiança
necessária à realização das tarefas que me propus quando atingi a cátedra que
ainda ocupo.
Como foram difíceis os anos que
se seguiram. Era então a vida científica no Brasil sensivelmente pior do que é
hoje. Como progredimos. Ainda que não haja hoje a compreensão que desejo e a
apreensão com imediato asfixie em parte a pesquisa fundamental, o caminho já
percorrido é sem dúvida muito mais longo e mais penoso do que o que nos resta
de agora em diante. Os primeiros anos do Laboratório de Biofísica foram
duríssimos. Não havia recursos e o esforço de guerra dos Estados Unidos
impedia-nos de obter material científico de qualquer natureza.
Ajudado por Guilherme Guinle,
pelo Governo Brasileiro e pela Fundação Rockfeller, e principalmente pelo
estímulo que me deu o idealismo de um grupo de jovens que se acercou a mim, e
graças à nossa persistência, pude organizar o Instituto que você conhecerá. É
ele do ponto de vista do equipamento, amealhado há tanto tempo, comparável aos
europeus que você conhece, ainda que não tenhamos podido evoluir em certos
domínios de vanguarda, por falta de melhor apoio logístico.
Do ponto de vista estratégico,
este Instituto é um exemplo. A multidisciplinalidade imposta de início pelo
isolamento em que se encontrava, frutificou uma variedade de setores de
atividades, que possibilitou intercambio “intra-muros” científico dos mais
proveitosos. Mais do que tudo, entretanto, devemos ressaltar o ambiente humano.
A dedicação, o zelo, o espírito de cooperação, o relacionamento dos que
constituem o seu quadro, são uma mostra do que vale a gente brasileira.
O Instituto de Biofisica não é
uma exceção. Você encontrará em muitas outras instituições esta mesma
ambiência.
Digo isto porque você me pergunta
quais as suas perspectivas no Brasil. Estou certo de que nosso país saberá
aproveitar a vocação de moços como você. Ainda mais quando tem eles a
preparação que você obteve. Sobre esta, alias, quero ainda dar-lhe outro
conselho. Fuja da repetição de cursos, tão do agrado de jovens brasileiros, e
considere que depois de um certo momento nada mais instrutivo e criador do que
o contato direto com os problemas experimentais. Você já chegou a este ponto.
Certamente será aproveitado em um dos vários centros já existentes, ou naqueles
que estão se formando. Tudo leva a crer que serão eles reforçados pela política
de desenvolvimento tecnológico e científico que o governo federal desencadeia.
Sou assim otimista quanto ao seu futuro.
Desse modo terminarei a minha
carta, dizendo que, se você se sente vocacionado pela ciência, siga o seu
destino e o Brasil saberá aproveita-lo. As outras coisas, como diz o Evangelho,
virão depois. Naturalmente você não alcançará riquezas fáceis, que trariam
viaturas de luxo e associações elegantes. Mas não é isso que você deseja. Sua
satisfação virá de um convívio em um meio ebuliente, vivo, valoroso, radical,
empreendedor, que o da “intelligentsia” brasileira, igual à de todo mundo.
Neste caminho, você há de criar mais facilmente a sua felicidade, que não vem
da aquisição de bens materiais, cuja necessidade a faz propaganda comercial
instila na massa popular – a procura das “coisas” de que nos falta o romancista
francês George Pelc – É ela a consequência da contemplação de um sonho, de um
desejo, de uma aspiração, nos quais o bem comum tenha sido também considerado.
É ela, assim produto de sua própria ação, de seu desprendimento, como de sua
generosidade.
Carlos Chagas Filho – Paris 1967 / Rio de janeiro 1971