domingo, janeiro 20, 2013

A vida


Desenho feito pelo grande Oscar Debali, o uruguaio mais brasileiro que conheço

quinta-feira, agosto 09, 2012

Carta a um jovem

Transcrevo a carta escrita por Carlos Chagas Filho em 1967 em Paris, durante a estruturação do Instituto de Biofísica da UFRJ.
Com certeza se mantém atual e com todos os preceitos que regem a ciência .

É longa mas vale a pena a leitura


CARTA A UM JOVEM

Só hoje responde à sua carta. Há de me perdoar o atraso. É que não poderia fazê-lo sem meditar um pouco sobre suas indagações e hesitações, já expressas várias vezes durante os nossos encontros. Levou-me a mesma ainda a refletir sobre o desenrolar de minha vida profissional, e assim, a uma “busca do tempo perdido” – passado seria a expressão mais correta – desde quando me iniciei na pesquisa no Instituto Oswaldo Cruz, com Chagas, Villela, Torres, Miguel Osório e Carneiro Filipe.
Responde-lhe um pouco seguindo a moda do dia. Em minhas andanças pelas livrarias encontreo três livros de sucesso destinados à mocidade. Um, de André Maurois “Carta aberta a um jovem”; o outro de Pierre Henry Simon, crítico literário do “Le Monde”, o ensaio “Para um jovem de 20 anos”; e o terceiro de Georges Elgozy “Carta aberta a um jovem tecnocrata”.
A principal indagação de sua carta é a mais justa possível. Vale a pena ser cientista no Brasil? Poderia transforma nesta outra – “Que lhe reservará profissionalmente – para não dizer humanamente – o futuro”?
É o que me perguntam muitas vezes moças e moços como você. Esta preocupação, eu a observo frequentemente na fisionomia de meus alunos. Preocupa-me ela igualmente. Tem sido, entretanto, invariável e afirmativa a resposta que tenho dado a ela, desde quando, em 1937, ainda moço vi-me investido das pesadas responsabilidade de uma Cadeira à qual desejei dar nova ação e novo ânimo, pelos quais procurei desde logo introduzir a pesquisa na Universidade, e modificar velhos tabus de sua estrutura.
Desde então, encontrei-me face ao dilema de saber se tinha ou não o direito de encaminhar os jovens que me procuravam para uma carreira científica. Esta seria mais fácil mim do que para eles. O nome de meu pai ajudar-me-ia vigorosamente. Como de fato. Ademais, mais velho apenas de poucos anos, já me encontrava dirigindo uma Cátedra e o seu laboratório, em uma idade em que poderia planejar para construir e não competir para “chegar”.
Origina-se a resposta que sempre dei, em parte da atitude muito dosada de otimismo face à vida. Facilitou-me ela, sem dúvida, ter chegado à posição por demais representativa para mim, dentro da coletividade científica brasileira. Quero lhe dizer também a minha convicção de que existe em cada um de nós – os que procuram a ciência – a imperiosa necessidade de servir seu país, seu povo e a própria humanidade, e a de que a pesquisa é uma maneira de bem fazê-lo.
Creio aliás que a grandeza de um homem, de qualquer profissão, deve-se medir muito mais pela intensidade deste seu modo de sentir, do que pelo sucesso que houver obtido. Foi o que aprendi na convivência com meu pai, com Virgílio de Mello Franco, Roquete Pinto, Villela, Cerneiro Felipe, meu irmão e muitos outros. Por isso é que não considero réprobos os que pensam política e espiritualmente de maneira diametralmente oposto à minha. Respeito-os e os admiro desde que convicto de que os anima autêntico desejo de servir e de engrandecer nosso país ou a nação que seja sua, e não a sede do poder.
Assim, o primeiro aviso que lhe quero dar é de não se enveredar pela atividade científica, se lhe faltar esse desejo de servir. A ciência, com todas as suas grandezas, é na verdade uma servidão. Servidão ao ideal, que buscando na aventura científica a verdade e o descortínio de novos caminhos, quer dar ao homem as condições de vida que devem ser imanentes à sua dignidade. Tal tarefa não é fácil em o mundo contravertido pelo choque de paixões políticas e pelos conflitos armados e doutrinários, submetido ainda a autocracia do poder econômico. Cabe, entretanto, à ciência, concentrando-se nos caminhos do progresso verdadeiro, dar à humanidade a contribuição – talvez a de mais valia – para o asseguramento de seu futuro.
É este um dos encantos de sua futura carreira.
Na verdade, na marcha que seguimos sentimo-nos todos ameaçados para uma guerra de destruição sem par, e nos vemos imobilizados defronte da produção  de engenhos que poderão utilizar com mais proficiência as armas nucleares, assistindo maravilhados à abertura da era espacial, cujos reflexos militares não podem deixar de nos preocupar. Pressentimos com assombro que a manipulação dirigida do material genético – a melhor esperança para o aumento da produtividade agropecuária – poderá se voltar para o fabrico de um homem novo, cuja idoneidade moral não sabemos qual será.
É que em nosso tempo a ação tomou o passo da reflexão.
Como diz Herman Hesse, “nossa época viu crescer a espécie humana prodigiosamente, sem que o dinamismo resultante houvesse sido contrabalanceado por forças morais satisfatórias”. Os que temem que a ciência faça progredir ainda mais o desequilibrio esboçado se esquecem de que a ciência é responsabilidade do homem, que dela tirará o bom, como o mau uso.
Extraordinária messe de resultados benéficos para p homem foi obtida depois da bárbara explosão do primeiro engenho atômico de Hiroshima; não teria sido ela obtida se fosse aceita a admoestação do obscurentista o Bispo de Ripon, que sugeriu na Grã Bretanha, logo após a explosão fosse fechados pelo prazo de 10 anos os laboratórios de pesquisa de todo mundo. Isso me leva a uma outra advertência. Tem todo cientista uma missão: a de zelar para que não possam suas descobertas, por menos significativas que o sejam, ser desvirtuadas para outro fim que não o da sua utilização em benefício da humanidade. Sua vida profissional, por causa disso terá que ser em parte sacrificada. Nem todas as suas horas poderão ser dedicadas ao labor puramente científico. Os aspectos sociais do que realizar, tantas vezes difíceis de serem identificados, ocuparão sua atenção. Uma parte de sua atividade deve ser dada aos outros: aos estudantes que o procuram – e se isto não acontecer, não considere realizada sua carreira – e à informação do público, a qual deve ser simples, verdadeira, acessível e destituída de qualquer sentido de promoção. Exige ainda a sua futura carreira que você não tenha eiva de egoísmo. Só assim poderá trilhar uma das linhas mestras da ética científica? A da veracidade da informação; exige ela que suas comunicações não escondam detalhes importantes da manipulação experimental, ou dificuldades encontradas, permitindo assim a reprodução fácil do que houver observado. Mais ainda. Sentirá você muitas vezes a frustração que lhe dará o conhecimento dos resultados obtidos por outros grupos de pesquisadores e que lhe tirarão a prioridade que esperava ser sua. Esta frustração será tanto maior, quanto maior houver sido o seu empenho no trabalho realizado, e quanto maior for a sua convicção de que, responsável por sua perda, tenha sido o tempo gasto fora do laboratório ou as dificuldades de aquisição de material de trabalho, tão comuns entre nós.
Os caminhos da pesquisa científica exigem humildade e generosidade. Só elas poderão permitir que você compreenda que, acima de suas descobertas, esta o progresso da ciência. São essas virtudes que lhe permitirão, do mesmo modo, admirar o sucesso de outros cientistas. Sem a capacidade de admirar, que se refletirá como um estímulo em sua própria atividade, esta se estiolará. É necessário, portanto, que você compreenda que o aspecto competitivo da pesquisa científica tem um caráter especial. Possui ele um componente olímpico que tícipes da competição, convictos todos de que a obtenção do resultado final justifica os sacrifícios de uns e outros.
Será que você se apresta para a sua nova carreira, sentindo todas as dificuldades espirituais com que se defrontará?
Mas se estas ponderações podem parecer desanimadoras, deixei-me lhe dizer que esta não é minha intenção. Dir-lhe-ei mais ainda: se tivesse que recomeçar, teria hoje menos hesitação do que tive à 40 anos passados. Para explicar-me melhor, tenho que me referir aos anos que se seguiram à minha formatura, que foram os de formação científica, de volta à Universidade, e da construção do meu lar. Neles adquiri a confiança necessária à realização das tarefas que me propus quando atingi a cátedra que ainda ocupo.
Como foram difíceis os anos que se seguiram. Era então a vida científica no Brasil sensivelmente pior do que é hoje. Como progredimos. Ainda que não haja hoje a compreensão que desejo e a apreensão com imediato asfixie em parte a pesquisa fundamental, o caminho já percorrido é sem dúvida muito mais longo e mais penoso do que o que nos resta de agora em diante. Os primeiros anos do Laboratório de Biofísica foram duríssimos. Não havia recursos e o esforço de guerra dos Estados Unidos impedia-nos de obter material científico de qualquer natureza.
Ajudado por Guilherme Guinle, pelo Governo Brasileiro e pela Fundação Rockfeller, e principalmente pelo estímulo que me deu o idealismo de um grupo de jovens que se acercou a mim, e graças à nossa persistência, pude organizar o Instituto que você conhecerá. É ele do ponto de vista do equipamento, amealhado há tanto tempo, comparável aos europeus que você conhece, ainda que não tenhamos podido evoluir em certos domínios de vanguarda, por falta de melhor apoio logístico.
Do ponto de vista estratégico, este Instituto é um exemplo. A multidisciplinalidade imposta de início pelo isolamento em que se encontrava, frutificou uma variedade de setores de atividades, que possibilitou intercambio “intra-muros” científico dos mais proveitosos. Mais do que tudo, entretanto, devemos ressaltar o ambiente humano. A dedicação, o zelo, o espírito de cooperação, o relacionamento dos que constituem o seu quadro, são uma mostra do que vale a gente brasileira.
O Instituto de Biofisica não é uma exceção. Você encontrará em muitas outras instituições esta mesma ambiência.
Digo isto porque você me pergunta quais as suas perspectivas no Brasil. Estou certo de que nosso país saberá aproveitar a vocação de moços como você. Ainda mais quando tem eles a preparação que você obteve. Sobre esta, alias, quero ainda dar-lhe outro conselho. Fuja da repetição de cursos, tão do agrado de jovens brasileiros, e considere que depois de um certo momento nada mais instrutivo e criador do que o contato direto com os problemas experimentais. Você já chegou a este ponto. Certamente será aproveitado em um dos vários centros já existentes, ou naqueles que estão se formando. Tudo leva a crer que serão eles reforçados pela política de desenvolvimento tecnológico e científico que o governo federal desencadeia. Sou assim otimista quanto ao seu futuro.
Desse modo terminarei a minha carta, dizendo que, se você se sente vocacionado pela ciência, siga o seu destino e o Brasil saberá aproveita-lo. As outras coisas, como diz o Evangelho, virão depois. Naturalmente você não alcançará riquezas fáceis, que trariam viaturas de luxo e associações elegantes. Mas não é isso que você deseja. Sua satisfação virá de um convívio em um meio ebuliente, vivo, valoroso, radical, empreendedor, que o da “intelligentsia” brasileira, igual à de todo mundo. Neste caminho, você há de criar mais facilmente a sua felicidade, que não vem da aquisição de bens materiais, cuja necessidade a faz propaganda comercial instila na massa popular – a procura das “coisas” de que nos falta o romancista francês George Pelc – É ela a consequência da contemplação de um sonho, de um desejo, de uma aspiração, nos quais o bem comum tenha sido também considerado. É ela, assim produto de sua própria ação, de seu desprendimento, como de sua generosidade.


Carlos Chagas Filho – Paris 1967 / Rio de janeiro 1971

domingo, julho 15, 2012

Mudanças


Depois de um longo hiato em publicações, resolvi tomar vergonha na cara e organizar as coisas.

Voltarei a atualizar o blog com maior constância, entretanto decidi criar um novo blog, específico para a abordagem de fisiologia vegetal, com enfase em cultura de tecidos.

Aqueles que tiverem interesse em acompanhar os assuntos de fisiologia vegetal, tem um novo endereço: http://invitroplanta.blogspot.com.br/

E vamos a luta!

domingo, setembro 04, 2011

A incrível plasticidade vegetal


Tempos atrás uma propaganda veiculada na televisão mostrava uma planta carnívora com problemas digestivos e uma das reclamações da planta é que não tinha pés para sair e buscar um remédio para o estômago (licença poética né pessoal).

E o grande questionamento é: como as plantas fazem quando falta algum nutriente, quando há uma condição de estresse ou há alguma alteração nas condições anteriormente boas?

Como as plantas são organismos sésseis, que não podem se locomover na busca de recursos ou na fuga de condições adversas coube a plasticidade das células vegetais responder a estas adversidades.

As plantas apresentam um desenvolvimento diferenciado dos animais. Quando nascemos todas as estruturas já estão pré formadas, o recém nascido é um adulto em miniatura, requerendo apenas um amadurecimento de seus sistemas. Na planta são estabelecidas apenas as regiões que serão os centros de formação dos demais órgãos. Estas regiões são conhecidas como meristemas. Elas são ricas em células sem diferenciação, sem especialização, que podem dar origem a qualquer órgão vegetal: folha, raiz ou fruto.

A principio todas as células vegetais são totipotentes, ou seja, são capazes de se dividir e dar origem a uma planta completa. Essa é a propriedade buscada por vários pesquisadores que trabalham com células animais uma vez que a partir uma única célula seria possível o desenvolvimento de órgãos específicos.

Uma diferença fundamental entre os vegetais e os animais é a presença de uma parede celular rígida delimitando as células vegetais. Em animais, as células embrionárias podem migrar de um lugar para o outro, resultando no desenvolvimento de órgãos e tecidos contendo células que se desenvolveram em diferentes partes do organismo. Nos vegetais as migrações celulares são impedidas pois existe a lamela média a qual liga firmemente as células adjacentes. Como conseqüência o desenvolvimento vegetal ao contrário do animal, depende exclusivamente dos padrões de divisão e expansão celular.

É a plasticidade, a capacidade das células vegetais em se reprogramarem e se desenvolver de modo diferenciado em resposta ao ambiente, que permitiu a presença de vegetais por todo o globo, e deu "asas e pernas" para buscarem os recursos que necessitavam para o crescimento.

sábado, julho 02, 2011

Atenção na desatenção

- Sinto que minha vida diária não tem importância, que eu deveria estar fazendo algo diferente. Por quê?

- Quando estiver comendo, coma. Quando sair para um passeio, ande. Não diga "eu deveria estar fazendo algo diferente". Quando estiver lendo, dê a isso a sua atenção completa, seja um romance policial, uma revista, a Bíblia, seja o que for. Atenção completa é atenção completa e, portanto, não há essa de "eu deveria estar fazendo algo diferente". Só quando estamos desatentos é que surge o sentimento de "pelo amor de Deus, eu tenho de fazer alguma coisa melhor". Se dá atenção completa quando está comendo, isso é ação. O importante não é o que fazemos, mas se podemos dar a isso total atenção. Por atenção, não quero dizer algo que aprendemos através de concentração na escola ou na empresa, mas observar com nosso corpo, nossos nervos, nossa visão, nossos ouvidos, nossa mente, nosso coração _inteiramente. Se fizermos isso, haverá uma mudança enorme em nossa vida. Algo exigirá toda nossa energia, vitalidade, atenção. A vida exige essa atenção a todo minuto, mas fomos tão treinados em desatenção que procuramos sempre escapar da atenção para a desatenção. Dizemos "como é que vou observar? Eu sou preguiçoso". Seja preguiçoso, mas totalmente atento à preguiça. Seja totalmente atento à desatenção. Saiba que está totalmente desatento. E quando souber que está inteiramente atento à desatenção, estará atento.

Trecho do livro A Humanidade Pode Mudar?, em que o pensador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986) responde perguntas de estudiosos e adeptos do budismo 

sábado, abril 23, 2011

Sacolas plásticas, Rede Globo e a culpa é sua!!!

Em Belo Horizonte no ultimo dia 18 de abril entrou em vigor a Lei 9.529/2008 que prevê a extinção do uso de sacolas plásticas em estabelecimentos comerciais.
Concordo que nosso lixo é rico em materiais plásticos e principalmente pelas famigeradas sacolinhas, mas a questão é que a sacola é apenas uma sacola. Ela não tem vontade própria e sai andando perdida por aí. Que diga o excelente post do blog Idéias Sustentáveis - (http://drikafarah.blogspot.com/2011/03/eu-sacolinha-por-onde-ando-eu-quero.html?spref=tw)
O ser humano tem a mania de colocar a culpa dos erros nas coisas e não admitir a sua própria. E isso pode ser posto de maneira ampla e praticamente irrestrita.
Os tradicionais brados contra a revista Veja ou a Rede Globo. Não questiono a fato da qualidade e conteúdo mas o fato que existe soluções muito simples para esses reclames. Não compre Veja e não assista Globo! É tão trivial que parece imbecil.
O sujeito reclama da novela mas tem a incapacidade de mudar de canal. Por acaso esta esperando a Globo mudar de canal pra vc???

Então para de reclamar, porque se você não esta sendo parte da solução, então provavelmente não esta ajudando a resolver.

domingo, março 20, 2011

Corridas e outras coisas



Voltei a correr!

A correr literalmente, na rua. Diferente da correria diária do laboratório. E assim como tantas outras coisas, como este blog inclusive, vivo nessa constante luta de manter o ritmo, de não parar pelas metades.

Veremos se consigo minha meta de correr a meia-maratona de Lisboa. E voltar a jogar capoeira, voltar a nadar, voltar para o trapézio, arrumar um emprego, comprar um acordeon e aprender a tocar, aprender a tocar harmônica....