quarta-feira, janeiro 05, 2011

A nada mole vida das plantas

Após a repostagem da "Puberdade das plantas" fiquei com vontade de iniciar uma série sobre fisiologia vegetal. Pretendo escrever pelo menos quinzenalmente a respeito de alguns pontos da fisiologia vegetal de um modo mais leve e contextualizado com o dia dia.

O estresse é interpretado como um fator advindo do estilo de vida do homem moderno. Dificilmente quando alguém pensa em uma situação de estresse irá pensar em uma paisagem de campo ou em plantas. Porém as plantas convivem rotineiramente como uma vida tão, ou mais, estressante quanto a vida das grandes cidades.

O estresse pode ser considerado como um desvio significativo das condições ótimas para a vida, e induz a mudanças e respostas em todos os níveis funcionais do organismo, as quais são reversiveis a princípio, mas podem se tornar permanentes.

As plantas estão frequentemente expostas a condições de estresse ambiental, afinal elas não podem se locomover na busca de condições mais propícias.

Alguns fatores podem ser tornar estressantes em poucos minutos, como a temperatura do ar; enquanto outros como o conteúdo de água no solo, podem levar dias ou semanas para se manifestar. Mesmo nos locais onde as condições são constantemente favoráveis para a maioria das plantas, tal como em uma densa floresta, a exuberância da vegetação representa uma desvantagem para alguns membros da comunidade. Não há um local totalmente livre de estresse; o estresse moderado deve ser considerado como uma situação normal da vida e não como um estado excepcional.

O estresse desempenha um papel importante na determinação de como o solo e o clima limitam a distribuição das espécies vegetais. As condições ambientais de um local irão permitir que apenas as espécies que apresentam modificações adaptativas para aquelas condições possam se desenvolver.

Como resposta ao estresse podem ocorrer modificações de aclimatação ou de adaptação. Se a tolerância a um estresse aumenta como conseqüência de uma exposição anterior a esse estresse, diz-se que a planta esta aclimatada. A adaptação refere-se a um nível de resistência geneticamente determinado, adquirido por um processo de seleção durante muitas gerações. A adaptação e a aclimatação resultam de eventos integrados que ocorrem em todos os níveis de organização, desde o anatômico e morfológico até o celular, bioquímico e molecular.

Frequentemente existe uma boa correlação entre a intensidade do fator de estresse e a resposta induzida. Todo órgão da planta é afetado pelo estresse, mesmo se apenas uma parte limitada da planta foi inicialmente envolvida. A coordenação da resposta de estresse no corpo da planta é realizada pelas substâncias de crescimento, semelhantes aos hormônios nos animais.

As plantas podem evitar as condições de estresse seja espacialmente germinando apenas em ambientes adequados, ou temporalmente por meio da promoção de crescimento durante o período que apresenta condições favoráveis.


Estresse hídrico

Talvez a condição de estresse para as plantas, mais corriqueira e mais facilmente entendível é o estresse hídrico. O deficit hídrico pode ser entendido como a pouca disponibilidade de água no estado apropriado a planta. Esta situação pode ocorrer devido a uma variedade de razões, como a intensa evaporação, água ligada osmoticamente aos solos salinos ou devido ao congelamento do solo. Dessa forma, as estratégias de resistência a seca variam com as condições ambientais.

A primeira e mais sensível resposta ao déficit hídrico é a diminuição da turgescência (a planta murcha) e, associada a esse evento, a diminuição do processo de crescimento. A diminuição da área foliar pela queda das folhas é uma resposta precoce ao déficit hídrico. O ajustamento da área foliar é uma mudança importante a longo prazo, que beneficia a adequação da planta a um ambiente com limitação hídrica, uma vez que os estômatos – responsáveis pela liberação do vapor d’agua na planta – encontram-se predominantemente nas folhas.

O déficit hídrico acentua o aprofundamento das raízes, sendo considerado a segunda linha de defesa contra a seca. O aprofundamento das raízes ocorre em virtude de um maior direcionamento de assimilados (açucares em geral), uma vez que a inibição da expansão foliar reduz o consumo de carbono e energia. A redução da área foliar e o aprofundamento das raízes são estratégias durante a desidratação lenta e a longo prazo. 

Quando o começo do estresse é mais rápido ou a planta alcançou sua área foliar plena antes de iniciar o estresse, outras respostas protegem contra a desidratação imediata. 

O fechamento estomático pode ser considerado a terceira linha de defesa contra a seca. A maior limitação provocada pelo estresse hídrico à fotossíntese refere-se a menor concentração de CO2 disponível promovido pelo fechamento dos estômatos levando ao “paradoxo dos poros”, onde se busca maximizar a entrada de CO2 e minimizar a saída de água.

As alterações adaptativas, ou seja, aqueles que estão presente no genoma da planta, podem ocorrer via o aumento no depósito de cera sobre a superfície celular, presença de tricomas brancos e claros, deposição de sais, e estômatos localizados em criptas ou em depressões.

Então na próxima vez em que você se refrescar no ar condicionando no calor do meio-dia ou se deliciar com um copo d’agua gelado , lembre-se que as plantas em geral estarão passando por um momento de grande estresse.

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